PT assume que enfraqueceu a esquerda em seu roteiro de autocrítica

Até onde entendi a resolução que a mídia trata como uma “autocrítica” do PT é um chamado para um Encontro Extraordinário a ser realizado em novembro, precedido de uma reunião extraordinária em julho no âmbito do seu Diretório Nacional. Trata-se de um roteiro que pode ser lido na íntegra aqui: http://goo.gl/ablvAJ (e agradeço a Maurício Ribeiro o envio).

Pelo menos o documento assume um ponto fundamental: que a conciliação de classes do PT enfraqueceu a esquerda. Tudo bem que não fala que colaborou para a onda conservadora mas isso a gente pode concluir.

Não vou entrar no detalhamento da crítica da autocrítica que ainda não foi feita, até porque a autocrítica ainda será feita, ou não, e a resolução sequer debatida com seus pares. Ou seja, não é autocrítica, a não ser que se considere isso de forma tão verticalizada a ponto do Diretório Nacional representar a opinião de todos no partido em um processo que deveria passar por todos os filiados.

No entanto, quero salientar alguns pontos em duas partes.

Primeiro, no que diz respeito a contextualização oferecida:

1- as “velhas oligarquias da política, da mídia monopolizada e do grande capital” eram aliadas até pouco tempo ou em vários momentos dos 13 anos em que o PT encabeçou o governo federal

2- o papel da autocrítica não é de se colocar como vítima mas assumir responsabilidade nos processos que participa.

3- o PT foi rifado por não ter capacidade política de ordenar o denunciado “amplo programa de reorganização do desenvolvimento capitalista nacional”. Basta lembrar a atuação do governo Dilma junto a José Serra para a aprovação das mudanças no pré-sal, um dos elementos destacados no documento.

4-o neoliberalismo já era praticado no governo Dilma.

5- fica parecendo que o PT não criminalizou a esquerda nem aprovou e sancionou uma lei antiterrorismo.

6- até agora, de fato, a Lava Jato vem sendo seletiva em relação ao PT.

7- parece que o PT é um guardião das riquezas contra o imperialismo, mas não me parece que o que está em curso na Amazônia seja uma proteção, pelo contrário.

 Segundo, no que diz respeito aos erros do partido:

1- Será que basta dizer que esqueceu do enfrentamento?

2- O prestígio de Lula não é visto como problema?

3- A reforma do Estado não pode ser confundida com seus aparelhos repressores como aparece no documento.

4- acho que é um ponto importante quando afirma que as alianças ao centro serviram para desmobilizar na medida em que não criava formas de pressão do governo.

5- a crítica ao pragmatismo eleitoral aparece com sinais de quase morte do partido

6- sinaliza as práticas de financiamento eleitoral derivadas do pragmatismo acima destacado. Não houve esforço algum para corrigir isso como o documento insinua.

7- assume a responsabilidade pelo enfraquecimento da esquerda.

8- assume que não conseguiu imprimir reformas distributivas.

9- o esgotamento do modelo é associado à crise internacional mas nada se diz sobre a dívida e sua auditoria.

10- assume o estelionato eleitoral de 2014 sem ser dessa forma, dizendo que opta pela agenda do capital em detrimento da política distributiva que começa a retroceder em 2010.

11- De certa forma, o PT tenta se descolar do governo Dilma.

12- O PT não rechaçou as chantagens de Cunha, mas deu um limite nelas quando se tornaram insustentáveis para o partido.

O roteiro da autocrítica dá uma pausa no final pois o partido ensaia de forma pretensiosa a organização da esquerda pela Frente Brasil Popular e Frente Povo sem Medo, seus braços atuais na narrativa “Não ao golpe, Fora Temer”. Propõe deter o golpe pela via da ilegitimidade do governo interino com ênfase nas articulações internacionais.

De certa forma, parece lutar por Dilma e pelas chances eleitorais de Lula. E acredita que o retorno de Dilma traga legitimidade para conduzir uma reforma política e decisões econômicas que gerem estabilidade.

Depois de tudo que li, uma pergunta para acrescentar ao roteiro que se fecha depois das eleições municipais: valeu a pena se aliar ao PMDB mesmo depois de tudo que foi escrito neste documento?

Novembro vai demorar para o PT.

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